6 de mai de 2015

temporal

Sempre considerei escrever um dos exercícios mais complicados dos quais me eram entregues por tarefa. Não que não conseguisse traçar uns parágrafos mais ou menos bem acabados mas invejei desde sempre a facilidade absurda que algumas criaturas possuíam de, mesmo que lendo tão menor quantidade de livros do que eu, expressar suas ideias com clareza e fluidez. Isso é realmente digno de ser chamado talento. Não o possuo ainda. Questão de fusos e mais fusos que se vão pois que há tempo em sopro constante até onde o universo permitir.

Nessas reviravoltas de reflexões já me entretive contemplando alguns de meus escritos sem que lhes conseguisse ir além. Sempre faltava algo de maior, ou mais terno, ou mais amargo que me impregnasse as palavras de um sentimento borbulhante ou que me auxiliasse para além das metáforas, a concluir a função curativa que é escrever. Não chegava a tal encanto.

Me sinto como que presa a um grilhão estranho e medonho. Essa incerteza que por vezes me leva a agonia de pensar até qual ponto me é possível chegar. Talvez por ser pouco lógica não consigo evitar os calafrios que me correm a espinha contemplar abismos profundíssimos ou mergulhos abissais. Tenho medo. Isso vai muito além da escrita, chegando a contemplar até mesmo minha fala. Falta-me memória possível para alicerçar todas as ideias fabulosas que tive à véspera de meus discursos. Falta-me também uma eloquência que cative e que ultrapasse meus sussurros trêmulos e instáveis. Essa timidez que me corrói cada sílaba fazendo com que minha orientação seja pra lugar algum e que meu discernimento caminhe por cordas bambas.

Mas, ah! Já passei tanto! Tem sido um constante temporal e eu não tenho abaixado a cabeça pois que, muito mais do que o que essa palpitação acelerada que me altera por completo a respiração, tenho certezas que me impelem para bem além do que dói...