2 de jan de 2014

Gratidão

Nossos pés tocavam o lodo escorregadio e o chuvisco que tocava nossos ombros era absolutamente mais quente do que a água à qual estávamos submersas. O nosso apoio estava no não saber até onde as pedras se estendiam. Esse é o maior problema de quem busca uma cachoeira lodosa. A água não é transparência aos pés. Mais rápido do que uma faísca que se esvai, meu corpo perdeu o apoio e, as mãos que me apoiavam esvaíram junto do meu corpo para um buraco que eu não conseguia alcançar ao fim com a ponta dos dedos. Um anjo de carne tentava nos jogar à margem e o verde que os olhos alcançavam junto ao grito oprimido pela tosse desenhava uma resignação desesperada por oxigênio. Não havia mais mão que tocasse pois cada fluxo de ar era tomado por água. O anjo, enfim, empurrou nossos corpos a um lugar onde outros anjos esperavam para nos amparar...

Gratidão é a certeza da falta de esperança que rodopia sua mente e que se desfaz por um segundo de alguém que decide mudar um fim.