30 de out de 2013

Cécile

Tocou o piano com a ponta dos dedos. Ali, entre sua pele e a madeira sentiu quase um trepidar. Suspirou em voz alta, reticente. Usava um vestido que terminava um pouco depois de seus joelhos. Era de um tecido bege e inimaginavelmente leve. Não sei se não olhou ao chão, ou se chão não havia ali. A menina que brincava com seus cabelos em uma traça mal feita, não sabia exatamente a diferença entre realidade e utopia. Piscou uma, duas, três e, não lembro se houve a quarta vez. Fez que procurava alguma coisa no quarto sem paredes, sem chão. Ah! Havia uma janela também com cortinas delicadamente tecidas. Florezinhas minúsculas eram representadas nela junto de um filete quase translúcido de água (ou era impressão?). A cortina estava fechada. A janela pendia no nada. Cécile continuou insistentemente inquieta num sem fim de curiosidades. Mas não tocou a cortina. Por que? Não buscou o chão. Por que?
Quieta, se abraçou. E ali ficou como se ninguém houvesse feito isso há séculos por ela. E sentiu vontade de rir. Riu. E sentiu também vontade de chorar... riu de novo.
E agora seu riso era sem som, era sem face; sorrir talvez fosse bastante dolorido. Chorou.
O piano iniciou sozinho uma melodia doce que embalou a menina em seu abraço. Da música, do riso, do choro , da curiosidade e da dor, nota a nota era tocada a Cécile.
Uma brisinha bem leve tocou o pescoço vazio da música. A cortina abriu devagarinho e num brilho fosco de lágrima, expôs o rio e as flores lá fora. Lá fora...
De uma pontezinha rústica, músicos acompanhavam o piano, o abraço, a menina.
Da ponta dos pés ousou: e num instante estava lá for . Cécile era a música então?

Ninguém a viu, ou escutou o piano. Mas a música... Cheia de abraço, lágrima e dor não tem fim.


(é uma escrita mais antiga minha mas que me coloca suave em alguns momentos em que ~preciso~ amainar)

23 de out de 2013

empatia

Bonito pensar que a gente consegue sentir alívio quando alguém que não está próximo sai de uma situação ruim. Mas é tão mais raro ter empatia com quem passa na rua ou por quem a gente não sente afinidade. É mesmo delicado quando me coloco pensando que se abrisse a literatura em romances, história ou poesia, sentiria com muito mais força que consigo ter compaixão de alguém que ali, é herói ou miserável e que independente de eu ter conhecido esse personagem e tê-lo fitado, passado momentos meus com ele, eu consigo sentir amor. Amor, ternura, envolvimento e um mar de projeções de sentimentos meus e de tudo enquanto for de mágoa que pode muito bem estar escondida debaixo do tapete do meu inconsciente...

Mas e depois? E depois que vem a vida e eu deixo de ser leitora, que diferença faz o que eu sinto em relação a quem eu não tenho intimidade? Porque, ora, é tão mais fácil compreender um conto do que pessoas que vivem tão perto e tão longe de mim? O que impede que eu consiga abarcar a complexidade do que cada uma dessas pessoas sente? 

O que falta mesmo e conhecer e entender o terreno de onde vivemos primeiro, isto é, nossa mente, pra que sabendo dos nossos vícios antes de entender o alcance que podem ter nossas virtudes, a gente consiga valorizar com simplicidade o que os outros sentem também...