8 de dez de 2013

Pó de estrela

Em absoluto, se cerro meus olhos a única certeza que consigo por milésimos abstrair é de que permaneço. Diante de fagulhas de um nunca mais a que o tempo me sentencia, todo e qualquer segundo meu passa como brisa que não é mais e que -igual pra todo mundo- foi soprado daqui. Memória não conta se o pó, por mais mágico e delicado, se a pluma por levíssima e em cócegas esvai. Por ousadia ou desespero em sussurros dedilho minhas escolhas e, antes que eu me arrependa, caio num buraco de efeitos que não consigo prever. Por mais doce a fragrância, ela vai embora e não fico senão com impressão. Vai passar, vai passar, vai passar a dor, o medo já foi embora, não há mais temor aqui, a angústia mudou de lugar e de nome. E ainda permaneço. Se abro os olhos, se me desfaço, se sou trêmula ou se sou triste. Não importa. Qualquer mínimo já desvia minha atenção ou desfoca meus sentimentos. Olha! Vê ? Sou quase infinito e não sou nada. Sou pó de estrela de reluzir etéreo e sou areia fosca que vai do nada a lugar nenhum. Sou espuma?  Sou areia? Sou estrela? Sou sonho? Permaneço.

5 de nov de 2013

Voyeur

O que faz com que o que era pouco aceitável alcance a elaboração do possível é, antes de qualquer razão, a forma como sentimentalmente lidamos com os aspectos que a isso nos atrai. Rostos bonitos que escondem dor e frustração nem sempre demonstram a que realmente gostariam de viver. Mas o que importa, afinal, se julgando o que sentem os outros ou o que vestem os que passam, ou que vida levam; o que importa afinal essa antítese tão bem elaborada se na mais das vezes uma armadilha de aparência intercepta o que há de mais puro naquele que é foco ao voyeur?

Não importa a crisálida se o que desabrocha da dor é mais belo do que o desespero que nutre a auto-transformação. É isso. Crescer e amadurecer não desvincula em momento algum nossas possibilidades do olhar do outro. E Deus nos ajude que esse olhar não seja ruim. Afinal, fruto nenhum é recomendável até que o doce prove o contrário. Da mesma forma a aparência.

30 de out de 2013

Cécile

Tocou o piano com a ponta dos dedos. Ali, entre sua pele e a madeira sentiu quase um trepidar. Suspirou em voz alta, reticente. Usava um vestido que terminava um pouco depois de seus joelhos. Era de um tecido bege e inimaginavelmente leve. Não sei se não olhou ao chão, ou se chão não havia ali. A menina que brincava com seus cabelos em uma traça mal feita, não sabia exatamente a diferença entre realidade e utopia. Piscou uma, duas, três e, não lembro se houve a quarta vez. Fez que procurava alguma coisa no quarto sem paredes, sem chão. Ah! Havia uma janela também com cortinas delicadamente tecidas. Florezinhas minúsculas eram representadas nela junto de um filete quase translúcido de água (ou era impressão?). A cortina estava fechada. A janela pendia no nada. Cécile continuou insistentemente inquieta num sem fim de curiosidades. Mas não tocou a cortina. Por que? Não buscou o chão. Por que?
Quieta, se abraçou. E ali ficou como se ninguém houvesse feito isso há séculos por ela. E sentiu vontade de rir. Riu. E sentiu também vontade de chorar... riu de novo.
E agora seu riso era sem som, era sem face; sorrir talvez fosse bastante dolorido. Chorou.
O piano iniciou sozinho uma melodia doce que embalou a menina em seu abraço. Da música, do riso, do choro , da curiosidade e da dor, nota a nota era tocada a Cécile.
Uma brisinha bem leve tocou o pescoço vazio da música. A cortina abriu devagarinho e num brilho fosco de lágrima, expôs o rio e as flores lá fora. Lá fora...
De uma pontezinha rústica, músicos acompanhavam o piano, o abraço, a menina.
Da ponta dos pés ousou: e num instante estava lá for . Cécile era a música então?

Ninguém a viu, ou escutou o piano. Mas a música... Cheia de abraço, lágrima e dor não tem fim.


(é uma escrita mais antiga minha mas que me coloca suave em alguns momentos em que ~preciso~ amainar)

23 de out de 2013

empatia

Bonito pensar que a gente consegue sentir alívio quando alguém que não está próximo sai de uma situação ruim. Mas é tão mais raro ter empatia com quem passa na rua ou por quem a gente não sente afinidade. É mesmo delicado quando me coloco pensando que se abrisse a literatura em romances, história ou poesia, sentiria com muito mais força que consigo ter compaixão de alguém que ali, é herói ou miserável e que independente de eu ter conhecido esse personagem e tê-lo fitado, passado momentos meus com ele, eu consigo sentir amor. Amor, ternura, envolvimento e um mar de projeções de sentimentos meus e de tudo enquanto for de mágoa que pode muito bem estar escondida debaixo do tapete do meu inconsciente...

Mas e depois? E depois que vem a vida e eu deixo de ser leitora, que diferença faz o que eu sinto em relação a quem eu não tenho intimidade? Porque, ora, é tão mais fácil compreender um conto do que pessoas que vivem tão perto e tão longe de mim? O que impede que eu consiga abarcar a complexidade do que cada uma dessas pessoas sente? 

O que falta mesmo e conhecer e entender o terreno de onde vivemos primeiro, isto é, nossa mente, pra que sabendo dos nossos vícios antes de entender o alcance que podem ter nossas virtudes, a gente consiga valorizar com simplicidade o que os outros sentem também... 

30 de set de 2013

Um dia de cada vez...

Sou complexada com quem tem oportunidade e deixa passar. Fico encabulada com a forma como muita gente, convivendo com verdadeiros gênios ou tendo minutos ao lado de pessoas sábias, esquece-se que língua foi feita pra muito além do que falar da vida alheia, aprender. Mas me conformo quando penso que isso pode ser -de forma bem grandiosa- ou orgulho ferido ou ignorância demais.

Quando pensamos na quantidade de gente de coração bonito que já passou por esse planeta azul e que, muitas das vezes nós nem temos notícia dessas pessoas é engraçado notar que ao lado destes ícones,alguns sortudos vivenciaram verdadeiras lições e mesmo assim continuaram com a cabeça bem limitada e o coração embrutecido. Onde está a vergonha nossa quando vemos passar anjos que vão da lama ao lírio e que, se distinção, trabalham? O objetivo é um só: melhorar.

Hoje, uma situação boba me deixou ansiosa e com um pouco de angústia pensei sobre essas coisas. Mesmo pensando assim, eu tenho certeza que com a quantidade do que sei sou absolutamente suscetível às minhas vaidades e ao meu egoísmo e que por isso, em diversos momentos ainda vou cair no meu orgulho ferido. Ainda assim, alguns momentos brilhantes de raciocínio e mudança de conduta fazem-me sair da minha mesmice do meu inconsciente viciado tendências infantis e valem demais como triunfo pessoal :). Acho que isso deve ser o que a gente sente quando amadurece. Pena que semente nenhuma vira árvore de uma hora pra outra e muito menos dá fruto ou flor a qualquer momento. Mas é um dia de cada vez...


2 de set de 2013

Agonia

Tenho me sentido confusa em relação à minha graduação. Vocês sentem isso as vezes? Tem momentos em que penso, que, nossa! é exatamente aqui que eu deveria estar. Mas outros somatórios maiores de tempo me dizem da minha inconformação com a Psicologia. Eu fico agoniada quando penso que estou no sexto período e que não sei o que vou querer com esse diploma depois que formar. Eu penso agora que talvez seja unicamente pra que eu preste algum concurso público e não seja exatamente voltada a todos esses excessos de psicanálise que a Psicologia da minha faculdade deseja que eu abstraia. Querem saber? Não morro de amores por Freud e tem um absurdo de conceitos de outras epistemologias que me deixam arrepiada em pensar que aquilo é realmente crido como tal. Não sei se isso é motivo mas não posso também ficar lamentando e deixar de ler ou estudar o que preciso, ainda que seja milhões de vezes mais atraente ler minhas opções literárias do que os absurdos de xerox que tenho que terminar antes que outros cheguem (e eles sempre chegam antes que eu termine os anteriores). À essa soma de inconformação vai meu pensamento de que se eu tivesse a maturidade e o discernimento que tenho a essa altura da minha vida estaria cursando qualquer outra coisa que se fundamentasse menos ciências humanas. Querem saber? Por mais que eu seja contemplativa e aprecie literatura, artes e meditação, não creio em muito do que leio nos textos do meu curso e não sei se vou utilizar 1/3 do que venho apreendendo. Se me perguntassem hoje, talvez eu estaria em algum curso das ciências biológicas ou médicas. Em alguma coisa que me desse um fim mais concreto ou um raciocínio mais empírico em si...

"Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão." C.G. JUNG

20 de ago de 2013

I wrote this record to stop wondering, to stop pining.

"Do you ever wonder what it would be like to be a bird? To be able to fly? What it would feel like to feel that free? Do you think birds ever feel left out? Or like they don't belong? Do you think they ever wonder if they're being a bird right? Life is an adventure and we have it in all of us to feel that free. You could spend your whole life wondering about things... and you could miss it. I wrote this record to stop wondering, to stop pining. " A Fine Frenzy - Album Trailer

Não sei se consigo escrever coisas levinhas se aqui dentro sinto um pouco de incerteza. O que importa é que não posso agora me perder já que meus passos marcam o que eu quero e pra onde eu devo ir. Sei que tem sido complicado. Tem sido, em absoluto, dificílimo compreender alguns momentos em que minhas emoções gritam ansiosas pra que eu tome um impulso diferente daquele que por vezes decido tomar. Dói. Mas também não quero fazer dessa dor um motivo de queda ou lamentação constante já que sei que crescer é necessariamente um pouquinho dolorido. Penso que depois de cada noite ruim, vem o orvalho da madrugada marcando que aquela dor, aquele medo já vão passar. E passa.
Eu sei de tudo o que já passei pra sentir o que ando sentindo e questionando em forma de alfinetadas e que, resignação! Resignação porque dor diz de ferida que um dia vai cicatrizar.
Eu posso soar melancólica ou podem não importar o número de vezes que engulo seco o choro que eu poderia demonstrar. Não significa que eu não sinta.
Eu sinto. E não adianta manter asas frágeis em dias de ventania, já que pena alguma se mantém diante do que corta a superfície -mas que vai a fundo- se a gente não tomar consciência do que anda sentindo.
Só que passa.


21 de mai de 2013

Lírio

Paciência é plantinha pequena que precisa de calor e luz pra que venha à flor. Pois que, imaginem só vocês, diante do que a mil arranhões - ou talvez até mais- o que vem passando nossos corações que, imaturos, inseguros, indecisos, caem por medo em lama. Isso é ruim e piora a dor. Mas não houve lírio que negasse a lama para que viesse a brotar. E se? E se paciência for lírio pequeno e suave que os ventos castigantes ousam forçar a raiz perder espaço no solo? Se, ora, se eu parar com tanto se e deixar com que minha respiração volte harmônica a me oxigenar,se isso vier a acontecer, sei que meus lírios hão de chegar. Agora não há véu que cubra o que está arranhado porque a pele não consegue não transpirar o que machuca aqui dentro.Isso talvez seja necessariamente uma forma de crescimento. E crescer é em absoluto um envolvimento com a dor. "Não quero sentir" eu repito sussurrando ao meu espírito que, seguro de fagulhas que desapercebi, sabe que preciso passar por quimeras avessas se quiser realmente pacificar o turbilhão que se agita em mim. É um mar? É lamaçal ? Não importa. Do céu, a chuva ainda vem purificar e amenizar o que parece sem fim.

1 de mai de 2013

Resignação

Por certo vocês haverão de notar o que as vezes, ventos cortantes trazem ao nos acariciar mãos e rostos desprotegidos. O que foi? O inverno já está aqui? Pois se, ora, não vejo ou dimensiono o pequeno gelo que me transpõe a brecha de calor, deve mesmo ser tempo geada por aqui. Sinto que se ao debruçar-me no parapeito não encontrar semente alguma ousando romper em broto o canteirinho que ali posso -ilusoriamente- cultivar, deve ser por razão do tempo que, absolutamente ferino, não espera o calor da seiva chegar. Mas não é ruim. Sei que minha respiração ainda me aquece e que, aqui dentro, brasa viva arde pulsando em meu peito. O que sinto? Sei o que posso nomear resignação e o que por ignorância passo cega à condenação. Não importa agora. Tenho sementes que já estão nascendo onde agora me debruço. Tenho árvores fecundas que não mais podem ser infringidas pelo mal-me-quer desse tempo inconstante. Há em minh'alma algo novo e quente que o frio que me maltrata não pode tocar.




25 de fev de 2013

Um passo de cada vez...

De tempos em tempos gosto de fazer algumas reflexões aqui que me ficam pulsando à flor da pele e que, se não as trago à letra, angustio-me invariavelmente.
Tenho estado absolutamente reflexiva sobre algumas necessidades que nós adquirimos à medida que amadurecemos. Primeiro passo então vem com o amadurecimento: quanto dolorimento pra passos tão lentos imprescindíveis em delicadeza! Vocês já pensaram que todas as vezes que a gente tem certeza que vai falhar, que tá na lama e que dali, com toda certeza não sai mais, vem alguma situação que movimenta ares de sabe-se lá onde e, enfim, aliviamos? Isso é o significado do que um dia foi trazido ao senhor Chico Xavier sobre situações difíceis ao longo de nossas escolhas: "Isso também passa.". Certo então é de que vai passar , a não ser que eu ou você sejamos masoquistas o suficiente pra viver de prazer por arranhões desnecessários e insistir em infantilidade e ignorância
Muitos de nós vamos perdendo oportunidades únicas de conviver e sanar problemas pequenos como uma cabeça de alfinete e que, por descuido tornam-se um furacão. O que nós queremos afinal? Viver em função da quantidade de não envolvimentos e pessoas para evitar, pessoas que não querem nosso bem? Isso é plantio e colheita de cada um. Sábio conselho bíblico que diz que o plantio é livre mas a colheita é obrigatória. O que eu e você queremos então? 
O tempo, entretanto caminha IGUAL pra todos nós. Faça eu uso bom ou ruim desses ponteiros, eles iram escoar por entre minhas escolhas e , que fique bem claro, eu posso até mesmo escolher não caminhar e manter-me fixo em minhas cristalizações mnemônicas: em todo meu orgulho ferido, em toda minha vaidade insana.
O que dói mais? Se um dia quando eu tiver de deixar este corpo -envelope abençoado ao meu espírito- e retornar ao Plano Espiritual quero fazê-lo consciente do tanto que decidi ser minha auxiliar ou carrasco de meu adiantamento.
Entendemos momentos difíceis, eles também passam. Mas ficar pra sempre assim não tem deixado ninguém mais bonito ou mais feliz.
Mas isso é escolha de cada um.